Continuo lendo na nossa imprensa artigos e notícias - a maioria destas editorializada - sobre o ex-presidente Lula e sua atividade política. Noticiam, analisam e comentam com um tom como se ela fosse ilegítima ou inconveniente, para dizer o mínimo.
Convenhamos: é uma postura da mídia que não tem nenhum sentido num país onde os ex-presidentes todos atuam, dia e noite, na política, seja partidária, seja parlamentar, e por fim na sociedade. Temos exemplos clássicos, óbvios. Três dos nossos ex foram eleitos para o Senado, os presidentes Itamar Franco (PPS-MG) - que nos deixou há pouco mais de uma semana - Fernando Collor de Mello (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP).
Os ex-presidentes senadores Collor e Sarney estão aí atuando em seus partidos e no Senado. Outro ex-chefe de governo, Fernando Henrique Cardoso, não só faz política no sentido amplo, como também faz política partidária. Aliás, até como intelectual e sociólogo ele nunca deixou de fazer política.
Os outros ex-presidentes podem fazer política, Lula não
Já o ex-presidente Lula, a cada aparição ou manifestação política que faz, toma pela frente um editorial contra, ou sua ação é noticiada de forma editorializada e negativa. Ainda nesta 2ª feira o ex-presidente Lula "ganhou" da Folha o principal editorial do jornal no dia, atacando-o por ter ido a Goiânia ao 52º Congresso da UNE, onde criticou a mídia e se manifestou sobre questões do nosso partido, o PT.
Assim, só há uma explicação para a implicância de uma parte da mídia e de seus articulistas - um direito deles, reconheço - com o ex-presidente Lula: preconceito, ou o desejo de criar cizânia entre ele e sua sucessora, a presidenta Dilma Rousseff.
Ou será que é medo, ou pior ainda, uma tentativa canhestra de censurar a atuação política do ex-presidente? Coisas da nossa política, ou melhor, da nossa mídia. Enfim, parece que o que querem é deixar combinado assim: a imprensa pode atacar o ex-presidente da República, o quanto, quando e da forma como quiser; ele não pode criticá-la.
No último fim de semana, realizou-se aqui em Brasília, o 2º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Até aí, morreu Neves. Ou pelo menos, um caiu do cavalo, no dia em que iniciavamos o tal Encontro. Ok, vocês já sabem disso. Mais de 400 inscritos, 30 mil pessoas acompanhando on-line as transmissões do Evento. Lula, o Cara, participou da Abertura. Agnello Queiroz, Governador do DF, fez as honras da casa. Ministro Paulo Bernardo, simpático e educado, foi trollado ao vivo pelo @eduguim. Zé Dirceu apareceu no sábado. Emir Sader, prof. Venício Lima também (coitado, o povo insiste em chamá-lo de Vinícius), etc, etc.
Vários artigos e textos foram publicados a respeito, repercutindo a sua importância. Alguns destacando o pânico que o PIG deve ter ficado com o crescimento do movimento da blogosfera em seus calcanhares. Outros analisando a importância histórica do Encontro. Outros dizendo até que o seu autor propôs alteração no "Ponto G" da carta final, seja lá o que isso signifique ou implique. Né, @GeisonGunnar?.
Sem querer cometer injustiças, e já cometendo, vou citar apenas alguns. O sempre combativo deputado @pauloteixeira13 postou: "Blogueiros progressistas lançam carta após II Encontro Nacional http://t.co/7HvRNNR". O já citado @eduguim escreveu que a "Imprensa se assustou com o Encontro de blogueiros | Blog da Cidadania http://t.co/jbLuGx8". No #TeiaLivre tem o artigo do meu brother, @imprenca, que nos contou de suas impressões gerais sobre o Encontro: http://t.co/e7TR8UI (Viram que fiz o merchan do #TeiaLivre? Isso se chama auto-referência). E "last, but not least", o @luisnassif que falou -brilhantemente, só pra variar- sobre "O novo ciclo da blogosfera", ----> http://t.co/ysavbeJ.
Sobre o texto do @luisnassif , concordo e lamento que, infelizmente, alguns companheiros nossos pensam que são @MarceloTas. Ou seja, que eles são "as referências da blogosfera, tem não sei quantos tantões de seguidores e que são os fodões". Não entendem que o "espírito da coisa" se resume numa palavra: "colaborativo". Eles precisam sim seguir, retuitar e citar os "ilustres desconhecidos" e "anônimos" que fazem a militância virtual ser real. De egos inflados, o inferno deve estar cheio (assim espero, amém!).
O que teria então eu, a acrescentar? Algumas poucas coisas. Mas como dizia Drummond, "De tudo ficou um pouco: de mim; de ti; de Abelardo". Primeiro, que tive a oportunidade de rever vários amigos e conhecer, pessoalmente, outros, que só me relacionava até então pela internet. Ok, isso também é Encontro. Já valeria a pena. Como dizia o outro poeta, xará desta "Petoa" aqui, "Tudo vale a pena se a alma não é pequena."
Aproveitando a deixa, vou contar meu encontro com uma dessas pessoas, de grande alma, o @Enio_PTrem. Conheci-o em Tucanópolis, no Encontro de Blogueiros que teve lá abril último. A gente saia do auditório da ALESP para ir fumar e conversar. (Tinha que ser na rua, porque nem debaixo das marquises é permitido fumar em Tucanópolis. Mesmo o Enio sendo cadeirante). Lá, fiquei sabendo que ele teria uma conversa com Lula, o Cara.
Fui buscar no aeroporto, ele e sua cadeira high-tech, cujo controle de joystick deixava as crianças morrendo de inveja. Depois soube que ele, quando entrevistou o Cara, "convenceu" Lula a participar do 2º Encontro Nacional. Sim, o Enio foi a "fonte" que confirmou em primeira mão a presença do Cara no evento aqui no DF.
Ou seja, sou "amigo do amigo do Cara". Tenho orgulho de ter tomado cachaça com ele e com tantos outros companheiros. Sei que as más línguas já estão me acusando de ter subvertido o Encontro, fornecendo a "marvada", inclusive dentro da sala onde participava da mesa sobre "militância e humor". Né, @Biruel?
Em minha defesa, parafraseando Getúlio Vargas, digo o seguinte: "a cachaça é nossa". Fui buscar direto da fonte (na fazenda de meu primo, ou seja, tá tudo em casa) e ninguém reclamou da qualidade do produto. Muito pelo contrário. Uma amostra dela chegou até a Bahia, presenteada que foi ao @nandomonteiro. Falando nisso, comentei com o pessoal, que o único problema do próximo Encontro Nacional ser na Bahia, é que eu não sei se volto de lá. Mas isso, a gente vê depois.
Seguindo outros grandes meios de comunicação globais, a revista Time escolheu - na semana passada - o presidente Lula como o líder mais influente do mundo. A notícia repercutiu em todo o mundo, sendo matéria de primeira página, no jornalão El País.
Elite e preconceito
Na verdade a matéria o apontava como o homem mais influente do mundo, posto que nem só políticos fossem alinhados na larga lista composta pelo Time. Esta não é a primeira vez que Lula merece amplo destaque na imprensa mundial. Os jornais Le Monde, de Paris, e o El País, o mais importante meio de comunicação em língua espanhola (e muito atento aos temas latino-americanos) já haviam, na virada de 2009, destacado Lula como o "homem do ano". O inédito desta feita, com a revista Time, foi fazer uma lista, incluindo aí homens de negócios, cientistas e artistas mundialmente conhecidos. Entre os quais está o brasileiro Luis Inácio da Silva, nascido pobre e humilde em Caetés, no interior de Pernambuco, em 1945, o presidente do Brasil aparece como o mais influente de todas as personalidades globais. Por si só, dado o ponto de partida da trajetória de Lula e as deficiências de formação notórias é um fato que merece toda a atenção. No Brasil a trajetória de Lula tornou-se um símbolo contra toda a forma de exclusão e um cabal desmentido aos preconceitos culturalistas que pouco se esforçam para disfarçar o preconceito social e de classe.
É extremamente interessante, inclusive para uma sociologia das elites nacionais, que o brasileiro de maior destaque no mundo hoje seja um mestiço, nordestino, de origens paupérrimas e com grande déficit de educação formal. Para todos os segmentos das elites nacionais, nostálgicas de uma Europa que as rejeita, é como uma bofetada! E assim foi compreendida a lista do Time. Daí a resposta das elites: o silêncio sepulcral!
Lula Líder Mundial
Desde 2007 a imprensa mundial, depois de colocá-lo ao lado de líderes cubanos e nicaraguenhos num pretenso "eixinho do mal", teve que aceitar a importância da presença de Lula nas relações internacionais e reconhecer a existência de uma personalidade original, complexa e desprovida de complexos neocoloniais. Em 2008 a Newsweek, seguida pela Forbes, admitiam Lula como um personagem de alcance mundial. O conservador Financial Times declarava, em 2009, que Lula, "com charme e habilidade política" era um dos homens que haviam moldado a primeira década do século XXI. Suas ações, em prol da paz, das negociações e dos programas de combate à pobreza eram responsáveis pela melhor atenção dada, globalmente, aos pobres e desprovidos do mundo.
Mesmo no momento da invasão do Iraque, em busca das propaladas "armas de destruição em massa", Lula havia proposto a continuidade das negociações e declarado que a guerra contra a fome era mais importante que sustentar o complexo industrial-militar norte-americano.
Em 2010, em meio a uma polêmica bastante desinformada no Brasil - quando alguns meios de comunicação nacionais ridicularizaram as propostas de negociação para a contínua crise no Oriente Médio - o jornal israelense Haaretz - um importante meio de comunicação marcado por sua independência - denominou Lula de "profeta da paz", destacando sua insistência em buscar soluções negociadas para a paz. Enquanto isso, boa parte da mídia brasileira, fazendo eco à extrema-direita israelense, procurava diminuir o papel do Brasil na nova ordem mundial.
Lula, talvez mesmo sem saber, utilizando-se de sua habilidade política e de seu incrível sentido de negociações, repetia, nos mais graves dossiês internacionais, a máxima de Raymond Aron: a paz se negocia com inimigos. As exigências, descabidas e mal camufladas de recusa ás negociações, sempre baseadas em imposições, foram denunciadas pelo presidente brasileiro. Idéias pré-concebidas estabelecendo a necessidade de mudar regimes para se ter a paz ou usar as baionetas para garantir a democracia foram consideradas, como sempre, desculpas para novas guerras. Lula mostrou-se, em várias das mais espinhosas crises internacionais, um negociador permanente. Foi assim na crise do golpe de Estado na Venezuela em 2002 (quando ainda era candidato) e nas demais crises sul-americanas, como na Bolívia, com o Equador e como mediador em crises entre outros países.
Lula negociador
O mais surpreendente é que o reconhecimento internacional do presidente brasileiro não traz qualquer orgulho para a elite brasileira. Ao contrário. Lula foi ridicularizado por sua política no Oriente Médio. Enquanto isso o presidente de Israel, Shimon Perez ou o Grande-Rabino daquele país solicitavam o uso do livre trânsito do presidente para intervir junto ao irascível presidente do Irã. Dizia-se aqui que Lula ofendera Israel, enquanto o Haaretz o chamava de "profeta da paz" e a Knesset (o parlamento de Israel) o aplaudia em pé. No mesmo momento o Brasil assinava importantes acordos comerciais com Israel.
Ridicularizou-se ao extremo a atuação brasileira em Honduras, sem perceber a terrível porta que se abria com um golpe militar no continente. Lula teve a firmeza e a coragem, contra a opinião pública pessimamente informada, de dizer e que "... a época de se arrancar presidentes de pijama" do palácio do governo e expulsá-los do país pertencia, definitivamente, a noite dos tempos.
Honduras teve que arcar com o peso, e os prejuízos, de sustentar uma elite empedernida, que escrevera na constituição, após anos de domínio ditatorial, que as leis, o mundo e a vida não podem ser mudados. Nem mesmo através da expressa vontade do povo! E a elite brasileira preferiu ficar ao lado dos golpistas hondurenhos e aceitar um precedente tenebroso para todo o continente.
Brasil, país no mundo!
Também se ridicularizou a abertura das relações do Brasil com o conjunto do planeta. Em oito anos abriu-se mais de sessenta novas representações no exterior, tornando o Brasil um país global. Os nostálgicos do "circuito Helena Rubinstein" - relações privilegiadas com Nova York, Londres e Paris - choraram a "proletarização" de nossas relações. Com a crise econômica global - que desmentiu os credos fundamentalistas neoliberais - a expansão do Brasil pelo mundo, os novos acordos comerciais (ao lado de um mercado interno robusto) impediram o Brasil de cair de joelhos. Outros países, atrelados ao eixo norte-atlântico e aqueles que aceitaram uma "pequena Alca", como o México, debatem-se no fundo de suas infelicidades. Lula foi ridicularizado quando falou em "marolhinha". Em seguida o ex-poderoso e o ex-centro anti-povos chamado FMI, declarou as medidas do governo Lula como as mais acertadas no conjunto do arsenal anti-crise.
Mais uma vez silêncio das elites brasileiras!
Lula foi considerado fomentador da preguiça e da miséria ao ampliar, recriar, e expandir ações de redistribuição de renda no país. A miséria encolheu e mais de 91 milhões de brasileiros ascenderam para vivenciar novos patamares de dignidade social... A elite disse que era apoiar o vício da preguiça, ecoando, desta feita sabendo, as ofensas coloniais sobre "nativos" preguiçosos. Era a retro-alimentação do mito da "pereza ibérica". Uma ajuda de meio salário, temporária, merece por parte da elite um bombardeio constante. A corrupção em larga escala, dez vezes mais cara e improdutiva ao país que o Bolsa Família, e da qual a elite nacional não é estranha, nunca foi alvo de tantos ataques.
A ONU acabou escolhendo o Programa Bolsa Família como símbolo mundial do resgate dos desfavorecidos. O ultra-conservador jornal britânico The Economist o considerou um modelo de ação para todos os países tocados pela pobreza e o Le Monde como ação modelar de inclusão social.
Mais uma vez a elite nacional manteve-se em silêncio!
Em suma, quando a influente revista, sem anúncios do governo brasileiro, Time escolhe Lula como o líder mais influente do mundo, a mídia brasileira "esquece" de noticiar. Nas páginas internas, tão encolhidas como um vira-lata em dia de chuva noticia-se que Lula "... está entre os 25 lideres mais influentes do mundo". Errado! A lista colocava Lula como "o mais" influente do mundo.
Agora se espera o silêncio da elite brasileira!
Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).